
Em virtude de terem chegado aos nossos dias muito poucas representações figurativas destas rainhas egípcias (exceto o busto da rainha Nefertiti e algumas estátuas da rainha Hatshepsut), as imagens apresentadas referem-se principalmente a monumentos relacionados com estas figuras históricas:
- Nefertari – Templos de Abu Simbel
- Hatshepsut – Templo funerário de Hatshepsut (próximo do Vale dos Reis)
- Nefertiti – Algumas cópias do célebre busto da rainha (fábrica de alabastro próximo do Vale dos Reis: “Isis factory for Alabaster stone“) e artefactos do faraó Tutankamon (enteado de Nefertiti) no Museu do Cairo.
- Cleópatra – Algumas imagens da cidade de Alexandria, onde Cleópatra nasceu, viveu e morreu, mas onde não foram até agora encontrados vestígios físicos da sua existência.

Ao longo dos seus 3 milénios de história (desde a unificação do Alto Egito com o Baixo Egito por volta de 3.200 a.C. até à morte de Cleópatra VII em 30 a.C.) a sociedade egípcia foi essencialmente patriarcal. Contudo, houve algumas mulheres que se destacaram na vida política do Egito Antigo, quer como Rainhas-faraó (ou seja, que ocupavam o cargo de faraó), quer assumindo papéis relevantes em momentos críticos na história do país, na qualidade de esposa do faraó.
O conhecimento atual da história do Antigo Egito permite destacar algumas mulheres que se sabe terem tido um papel relevante na vida política do país. Da pesquisa que fizemos selecionámos 4 figuras, mas é possível que tenham havido outras (atualmente menos conhecidas) que a História não refere e que lamentamos não poder mencionar.
NEFERTARI
O auge da civilização egípcia foi atingido durante o longo reinado de Ramsés II, o Grande (1.303-1.213 a.C.), 3ª faraó da 19ª dinastia, que governou durante 64 anos. As campanhas militares sucederam-se, tornando o Egito a primeira potência da zona do Médio Oriente e Norte de África. A sua esposa principal, a rainha Nefertari (cujo nome significa “a mais bela”) desempenhou papéis importantes na vida política do Egito, incluindo as negociações de paz com os Hititas. O seu túmulo é um dos mais famosos da necrópole conhecida por Vale das Rainhas, situada na margem occidental do rio Nilo, próximo da cidade de Luxor (antiga cidade de Tebas) e a Sul do Vale dos Reis. Nesta necrópole encontram-se cerca de 90 túmulos de esposas de faraós e de princesas.
Os Templos de Abu Simbel (1.264-1.244 a.C.) foram construídos durante o seu reinado (o grande templo dedicado a Ramses II e o pequeno templo à rainha Nefertari).





Segundo a Bíblia, foi no reinado de Ramsés II que Moisés terá vivido e libertado o povo hebreu da escravidão, liderando uma longa peregrinação até à terra de Canaã.

HATSHEPSUT
Hatshepsut foi uma mulher da linhagem real (filha do faraó Tutmosis I), que nasceu no início do séc. XIV a.C. e pertenceu à 18ª dinastia de faraós, no Império Novo. Foi esposa (e meio-irmã) do faraó Tutmosis II, regente do seu enteado (o faraó Tutmosis III) e rainha-faraó durante 15 anos:1.473-1.458 a.C. Quando o seu marido (Tutmosis II) faleceu, o filho deste (Tutmosis III, enteado de Hatshepsut) tinha apenas 2 anos de idade, pelo que a governação foi inicialmente tutelada pela madrasta; contudo, passados poucos anos Hatshepsut fez-se coroar faraó, tendo governado até à sua morte. O seu reinado correspondeu a um período de prosperidade económica e de paz relativa.





O grandioso Templo funerário de Hatshepsut foi construído durante o seu reinado nas proximidades de Tebas, na margem ocidental do rio Nilo (próximo do conhecido Vale dos Reis).









Tutmosis III (1481-1425 a.C.) assumiu a governação após a morte de Hatshepsut, em 1.458 a.C. e continuou as campanhas militares que ele já tinha iniciado no reinado da sua madrasta. Os egiptólogos modernos deram-lhe o nome de “Napoleão do Antigo Egito” em virtude de ter expandido o Império Egípcio até ao rio Eufrates, na Ásia Menor. Mais de 20 anos após a morte da sua madrasta, Tutmosis III ordenou a destruição de estátuas de Hatshepsut e mandou apagar as inscrições do nome dela nos monumentos, substituindo-as pelo nome do seu avô, do seu pai ou pelo seu próprio nome. O motivo de tal atitude ainda hoje permanence um mistério, parecendo pouco provável que se tenha tratado de um ato de vingança (como chegou a ser defendido por alguns investigadores, supostamente devido ao facto de Hatshepsut se ter auto-proclamado faraó e de ter usurpado o trono ao seu enteado durante quase 15 anos, até à sua morte). A elevada relevância de Tutmosis III no plano militar e o sucesso das sua campanhas, ainda no reinado da sua madrasta, assim como o facto de este ter ordenado a destruição dos referidos símbolos somente no final do seu reinado (mais de 20 anos após ter subido ao trono), não sugerem ter sido um ato de vingança.
NEFERTITI
Nefertiti (1.370-1.330 a.C.) foi a esposa principal do faraó Amenofis (ou Amenotep) IV, ou Akhenaton, e pertenceu à 18ª dinastia de faraós, no Império Novo. Provavelmente exerceu o cargo de faraó durante um curto período após a morte do seu marido (antes da sucessão de Tutankamon, seu enteado). Vivenciou um período conturbado da História do Egito devido à reforma religiosa que ela e Amenofis (ou Amenotep) IV implementaram.
No Antigo Egito os sacerdotes ocupavam o topo da organização social e o seu elevado prestígio acabou por ampliar o seu leque de atividades para fora do campo espiritual, ganhando grande poder económico, social e político, ameaçando a figura do próprio faraó.
O reinado anterior, do faraó Amenotep (ou Amenofis) III, o Magnífico (1.400-1.353 a.C.), foi um período marcado por 37 anos de paz e é atualmente considerado como um dos períodos de maior grandiosidade cultural e artística do Antigo Egito. Foram adicionadas construções elaboradas em Karnak e foi iniciada a construção do Templo de Luxor, que eram centros religiosos dedicados ao deus Amun, patrono de Tebas. Amenotep III idealizou a fusão do prestigiado deus Amun com Ra (o deus do Sol), dando origem a Amun-Ra, considerando-se ele próprio filho de Amun e a encarnação de Ra (provavelmente por litígio com os sacerdotes de Amun) e começou a construir monumentos em honra da sua própria divindade. Uma dessas construções foi um grande templo funerário próximo de Tebas, que incluía duas estátuas gigantes dele próprio, conhecidas atualmente por Colossos de Memnon. Estava aberto o caminho para o seu filho, Amenotep IV.
O faraó Amenotep (ou Amenofis) IV, ou Akenáton, (1.372-1.336 a.C.) da 18ª dinastia era filho de Amenotep III e reinou durante 17 anos. Juntamente com a sua esposa principal (a rainha Nefertiti) realizou uma reforma religiosa que tinha como objetivo limitar os poderes da classe sacerdotal egípcia, abandonando o tradicional politeísmo religioso do Egito e oficializando o culto monoteísta do deus Aton (habitualmente simbolizado pela figura do círculo solar). Também mudou o seu nome para Akhenaton (“aquele que adora Aton”) e mandou construir a cidade de Akhetaton (“horizonte do disco solar”) que passou a ser a capital do Egito, tendo muitos dos templos dedicados às outras divindades sido abandonados. Insatisfeitos com aquela situação, os sacerdotes dos antigos deuses fizeram oposição a esta reforma religiosa e seguiram-se grandes conturbações sociais no país. Depois da sua morte (14 anos após a reforma religiosa), o faraó Tutankamon (seu filho com uma esposa secundária) restabeleceu o culto dos antigos deuses e mudou a capital do Egito novamente para Tebas, tendo a cidade de Aketaton acabado por ser destruída, a fim de erradicar todos os sinais da nova religião do faraó Akhenaton.


Contudo, Nefertiti tornou-se mundialmente famosa por um motivo bem diferente: o seu busto. Descoberto em 1912 por um arqueólogo alemão e atualmente exposto no Neues Museum em Berlim, é um dos objetos de arte do Antigo Egito mais copiados, fotografados e estampados nos mais variados materiais (incluindo num selo de correio alemão). Trata-se de uma peça de calcário revestida a estuque pintado com 48 cm de altura e 20 Kg de peso. É atribuído ao escultor egípcio Tutemés (séc. XIV a.C.) e terá sido encontrado nas ruínas da sua oficina. O busto é notável para exemplificar a compreensão que os antigos egípcios tinham a respeito das proporções faciais realistas.




Tutankamon (1.341-1.323 a.C.) foi um faraó da 18ª dinastia, tendo ascendido ao trono aos 9 anos de idade (c. 1332 a.C.). Era filho do faraó Amenofis IV (ou Akhenaton) e de uma esposa secundária (era enteado da rainha Nefertiti). No seu reinado foi desfeita a reforma religiosa realizada pelo seu pai. É um dos faraós mais conhecidos do grande público, mas não é por ter acontecido algo de extraordinário durante o seu reinado (faleceu pelos 19 anos de idade e parecia sofrer de uma doença hereditária). A sua celebridade deve-se ao facto de o seu túmulo (situado no Vale dos Reis) ser o único que, até ao momento, foi encontrado inviolado (em 1922) em virtude de terem construído um outro túmulo sobre ele, tendo assim ficado escondido dos assaltantes. Todos os outros túmulos até agora descobertos foram assaltados e despojados dos artefactos em ouro e outros objetos valiosos. Devido à grandiosidade e longa duração de alguns reinados, é presumível que muitos dos túmulos contivessem riquezas semelhantes, ou até talvez superiores, às encontradas no de Tutankamon (que inclui cerca de 3.500 artefactos valiosos e uma máscara funerária em ouro com mais de 100 Kg). Todo este espólio encontra-se atualmente no Museu do Cairo.
CLEÓPATRA
Cleópatra VII (vulgarmente conhecida como “Cleópatra”) nasceu em Alexandria em 69 a.C. e foi rainha do Egito durante 21 anos (entre 51 e 30 a.C.), tendo sido o último governante ptolomaico ativo. Após a sua morte o Egito tornou-se uma província romana. É uma das figuras históricas mais conhecidas do grande público, em virtude de ter sido imortalizada através da literatura (nomeadamente por William Shakespeare), pintura, teatro e cinema (em mais de 3 dezenas de filmes, desde George Méliès em 1899 até ao século XXI). O seu papel na História do Egito (e na de Roma) e os seus romances com dois dos homens mais importantes do mundo naquela época estão bem documentados, assim como o seu suicídio e o do seu segundo amante após a derrota militar. Contudo, as descrições do seu aspeto físico e da sua personalidade têm pouco fundamento, em virtude de terem sido feitas por historiadores romanos alguns séculos após a sua morte.


Cleópatra teve uma educação sofisticada, tendo estudado no “Museum de Alexandria” (instituição religiosa e científica que incluía a famosa biblioteca) e sido acompanhada por um tutor. Estudou astronomia, matemática, filosofia e política e teve treino em retórica. Aprendeu a falar várias línguas para além do seu idioma materno (o grego), nomeadamente o latim, o árabe e outras línguas do Médio Oriente, tendo sido o primeiro governante ptolomaico a aprender a língua egípcia (atualmente extinta).





Em 332 a.C. o Egito foi anexado ao gigantesco Império Macedónico por Alexandre, o Grande. Após a morte deste em 323 a.C. Ptolomeu I Sóter foi o general a quem coube a governação do Egito, mas declarou-se faraó independente em 305 a.C. dando origem à Dinastia Ptolomaica, com governantes de origem grega que se retratavam a si próprios como faraós. Durante este período o Egito voltou às suas tradições e rituais funerários e foram construídos templos em estilo egípcio, em honra das divindades tradicionais do país, nomeadamente o Templo de Philae (dedicado a Ísis, a deusa do amor), o Templo de Kom Ombo, o Templo de Edfu (dedicado a Horus e Hathor) e os edifícios atuais do Templo de Dendara. Mas apesar dos seus esforços, estes governantes foram contestados por rebeliões locais e por rivalidades, que conduziram à instabilidade política.
Cleópatra era filha de Ptolomeu XII, que se exilou em Roma após uma revolta no Egito. Naquela altura o país mantinha uma forte ligação (e dependência) relativamente à República Romana, sendo um importante fornecedor de cereais. Após a morte de Ptolomeu XII em 51 a.C. a governação do Egito passou a ser partilhada por 2 dos seus filhos (Ptolomeu XIII e Cleópatra VII), mas as disputas entre ambos deu origem a uma guerra civil.
Em 48 a.C. Júlio César (100-44 a.C.), glorioso general romano que tinha usurpado o poder de Roma com o seu exército no ano anterior, sendo agora um ditador, deslocou-se ao Egito para tentar conciliar as partes beligerantes, mas acabou por apoiar Cleópatra e vencer as tropas de Ptolomeu XIII na batalha do Nilo em 47 a.C. consolidando o lugar desta no trono do Egito. Júlio César e Cleópatra tornaram-se amantes e viveram juntos em Alexandria durante mais 1 ano, tendo tido um filho (Cesário – futuro Ptolomeu XV), que viveu entre 47-30 a.C. A família foi viver para Roma em 46 a.C. mas após o assassinato de Júlio César em 44 a.C. Cleópatra e Cesário voltaram para o Egito.
Após a morte de Júlio César a República Romana passou a ser governada por um triunvirato, constituído por Marco António, aliado de Júlio César, seu sobrinho e filho adotivo (83-30 a.C), Otaviano (63 a.C – 14 d.C.) e Lépido (“2º Triunvirato” da Roma Antiga: 43-33 a.C.), tendo formado um governo despótico e dividindo o comando da República Romana entre si, cabendo a Marco António as províncias orientais, que incluíam o reino do Egito (governado por Cleópatra VII).
Após a derrota militar dos assassinos de Júlio César em 42 a.C. Marco António mandou chamar Cleópatra, para a questionar sobre o seu eventual envolvimento no assassinato de Júlio César, tendo marcado encontro em Tarso (cidade situada próximo da costa sul da atual Turquia e um importante centro cultural naquela época) em 41 a.C. Cleópatra subiu o rio que dá acesso marítimo à cidade num barco engalanado e carregado de presentes, envergando vestes que pretendiam simular a deusa Ísis, tendo feito atrasar a sua chegada para aumentar as expectativas de Marco António. O romance entre Cleópatra e Marco António teve início nessa altura, tendo o casal seguido para Alexandria, onde viveram durante 11 anos. Desse relacionamento nasceram 3 filhos.
A relação entre os 3 homens do 2º triunvirato romano era difícil, lutando entre si para acumular poder e influência. Lépido acabou por ser afastado em 36 a.C. na sequência de uma manobra política falhada, enquanto Otaviano e Marco António se odiavam e conspiravam um contra o outro. A relação entre estes 2 últimos foi definitivamente arruinada em 34 a.C. quando a notícia das “doações de Alexandria” chegou a Roma. Tratava-se de um conjunto de legados mediante os quais Marco António teria transferido a governação de vários territórios romanos para os 3 filhos que teve com a rainha do Egito.
Em 31 a.C. o Senado Romano (instigado por Otaviano) declarou guerra a Cleópatra e considerou Marco António um traidor à pátria, tendo sido derrotados na batalha naval de Áccio (na Grécia) mas conseguido fugir para o Egito. No ano seguinte Otaviano entrou com as suas tropas em Alexandria e conquistou o país, levando a que o casal se suicidasse. Após os suicídios de Cleópatra e de Marco António em 30 a.C. Cesário (Ptolomeu XV) ter-se-á deixado enganar pela promessa de assumir o trono do Egito como herdeiro da sua mãe, tendo voltado a Alexandria, onde foi preso e executado por ordem do governante romano Otaviano. Assim, no ano 30 a.C. o Egito passou a ser uma província romana.
Com o desaparecimento de Marco António, Otaviano passou a ser o governante indiscutível de todo o mundo romano. Em 27 a.C. recebeu o título de “augusto” (majestoso, venerável) e foi proclamado o 1º Imperador de Roma, pondo fim à República Romana (509-27 a.C.) e dando início ao Período Imperial da Roma Antiga (27 a.C. – 476 d.C.).
Durante o período romano (contrariamente ao período grego) iniciou-se o declínio da cultura egípcia e da escrita hieroglífica, que foram completamente aniquiladas com a invasão árabe no século VI d.C.
No início do século XIX começou a haver um interesse crescente pela cultura egípcia por parte de arqueólogos europeus e egípcios, o que permitiu descodificar a escrita hieroglífica e sistematizar parcialmente a grandiosa história deste país.
(ver mais em: https://viagensdalita.com/2023/06/15/egito-uma-cultura-milenar/)